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MP autoriza prorrogação de inquérito policial por corrupção no Detran-MS parado desde 2023

Operação da Polícia Civil, Miríade, na agência do Detran-MS de Rio Negro, em 2023. (Divulgação)

Autoridades demoraram mais de dois anos para interrogar ex-servidor suspeito de fraude

A Polícia Civil investiga desde 2023 mais um caso de fraude envolvendo o Detran-MS (Departamento Estadual de Trânsito de Mato Grosso do Sul).

De lá para cá, foram 13 pedidos de dilação de prazo. Todos autorizados pelo MPMS.

O suspeito de liberar o 4º eixo sem autorização é o ex-servidor Ricardo Vinícius Nascimento Valente, que já se tornou réu em outros dois processos pelo mesmo crime.

Ele atuou como apadrinhado político (cargo comissionado) de maio de 2016 a setembro de 2023 e chegou a gerenciar as agências do Bosque dos Ipês e do Shopping Campo Grande. Também exerceu cargo na sede do Detran-MS.

Neste terceiro processo contra Ricardo por fraude, ainda não houve denúncia do MP, que segue autorizando pedidos de prorrogação feitos sucessivamente pelo delegado Guilherme Carvalho Rocha, da Deletran (Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Relacionados à Atividade Executiva de Trânsito).

O Jornal Midiamax já denunciou em diversas reportagens que há rede de blindagem nas investigações, que nunca esbarram nos verdadeiros chefes da corrupção no Detran-MS.

Este seria mais um caso em que políticos seriam os maiores beneficiados pelos constantes adiamentos do processo.

Manobra proibida, mas lucrativa

O caso foi descoberto pela Corregedoria do Detran-MS, que identificou a modificação de veículo pesado para o 4º eixo em um semirreboque, sem os devidos procedimentos. Essa alteração no sistema foi feita em abril de 2021, pelo usuário de Ricardo.

Consta no relatório da corregedoria que o então servidor passou o peso bruto de 2.550 kg para 5.850 kg e aumentou também a capacidade de carga do veículo. Assim, ele ficaria permitido a ser tracionado por caminhão 6×2.

A alteração é de interesse de proprietários de semirreboques de três eixos, pois há aumento da capacidade (toneladas) de transporte de carga. Isso porque a legislação exige que, para tracionar o bitrem, deve ser um cavalo mecânico 6×4. Já o caminhão 6×2 é mais barato e, podendo transportar um semirreboque com quarto eixo, torna-se mais lucrativo para o transporte de carga.

Porém, o quarto eixo é proibido em semirreboque por questão de segurança de transporte de carga nas rodovias.

Polícia demorou dois anos para ouvir investigado

O inquérito policial foi instaurado em 2023, mas só ouviu Ricardo dois anos depois, em agosto de 2025.

As primeiras diligências da polícia foram solicitar informações técnicas a respeito das alterações feitas pelo servidor, no período em que ele atuou no Detran-MS, intimação da empresa dona do semirreboque e de um terceiro servidor, acusado por Ricardo de ter roubado sua senha para fazer as alterações.

À polícia, o ex-servidor negou ter feito as alterações e voltou a acusar colega de ter roubado sua senha para efetuar as fraudes.

Inclusive, o delegado questionou se ele conhece ou tem proximidade com Abner Aguiar Fabre, réu em outro caso de fraude. Ele é concursado e continua nos quadros do departamento.

No entanto, Ricardo negou conhecer o servidor.

Depois disso, o delegado responsável pelo caso informou que precisa de mais tempo para concluir o inquérito. O pedido foi autorizado pelo MP.

Somente após a conclusão das investigações e a confecção do relatório final é que o MP fará análise para decidir se oferece denúncia ou não.

Depois disso é que o juiz entra no caso e decide se aceita a denúncia e torna o denunciado réu.

Exonerado com Joaci

Valente foi nomeado para o cargo em comissão de direção-executiva em maio de 2016, com salário de R$ 4.175,63. Após as investigações, foi exonerado em setembro de 2023 — já com salário de R$ 10.010,00, na mesma publicação que demitiu Joaci Nonato Rezende, ex-gerente da agência do Detran-MS de Rio Negro, também réu por fraudes no órgão.

Joaci Rezende é primo do deputado federal Beto Pereira, acusado pelo despachante David Chita de supostamente ser o verdadeiro ‘chefe’ da corrupção no órgão de trânsito. David, que já foi condenado pelo mesmo esquema, segue foragido e diz que, se for preso, corre risco de morte.

Ele tentou com as autoridades sul-mato-grossenses acordo de colaboração para supostamente entregar políticos e servidores de alto escalão que, segundo ele, seriam os verdadeiros chefes do esquema de corrupção no Detran-MS. Ninguém aceitou.

Assim, Chita afirma que teria havido um ‘acordo’ para que apenas os ‘peixes pequenos’, operadores do esquema de corrupção e fraude, fossem responsabilizados pelos ilícitos.

A reportagem tentou contato com Ricardo, por meio do número de telefone atribuído a ele dentro do processo, mas não fomos atendidos. O espaço segue aberto para manifestação.

Blindagem

Operação da Polícia Civil, Miríade, na agência do Detran-MS de Rio Negro, em 2023. (Divulgação)

O relatório de investigação da Polícia Civil ao qual o Jornal Midiamax teve acesso demonstra esquema de blindagem que existia dentro do órgão.

Em trecho do documento, a investigação revela que os procedimentos internos do Detran-MS, incluindo a Dirve (Diretoria de Veículos), investigavam apenas os chamados ‘digitadores’, dificultando até mesmo as investigações policiais.

Conforme a Polícia Civil, os investigados se valiam dessa brecha para se eximir da responsabilidade, dizendo que eles não tinham como saber o que acontecia antes ou depois que inseriam informações no sistema.

Assim, a polícia diz que se tratou de “verdadeiro modus operandi, utilizado durante longo período no Departamento de Trânsito do Estado de Mato Grosso do Sul, considerando as dificuldades práticas encontradas pela investigação”, segundo trecho do inquérito policial.

Ainda, a polícia aponta possível acobertamento do próprio Detran-MS: “As supostas irregularidades eram entendidas como meras transgressões disciplinares, a exemplo de extraviar documentos ou lançamento de informações imprecisas”.

Em entrevista ao Jornal Midiamax, no ano passado, reconhecida pela Justiça pelo teor jornalístico, David Chita, ao apontar Beto Pereira como o chefe da corrupção do Detran-MS, diz que as investigações são feitas para livrar políticos.

Despachante diz que investigações livravam políticos

Conforme o despachante, o próprio primo de Beto, Joaci, seria um dos operadores escolhidos para ‘pagar o pato’ nas investigações, que nem sequer passariam perto dos políticos e agentes públicos implicados. 

O cargo de gerente de agência do Detran-MS é estratégico para o esquema de corrupção. Conforme denúncia feita pelo MPMS, Joaci comandou esquema de recebimento de propina para alterações em registros do Detran a partir de Rio Negro, no período entre agosto de 2021 e fevereiro de 2023.

E foi justamente no começo de 2023, dias após uma reunião no escritório de Beto Pereira no bairro Tiradentes, em Campo Grande, que David Cloky Hoffaman Chita, já implicado na investigação de Rio Negro com Joaci, teria sido, segundo ele, ‘recrutado’ pelo primo do ex-comparsa, Beto Pereira, para turbinar o esquema.

Assim, além do modus operandi e do parentesco, o próprio despachante é outro elo entre os casos das fraudes comandadas por Joaci e do esquema que seria chefiado por Beto Pereira. 

A reportagem acionou o Detran-MS para esclarecer os apontamentos feitos pela investigação policial, mas não obteve retorno até esta publicação. O espaço segue aberto para manifestação.

Fonte: Midiamax

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