A Loucura da Posse e a Desumanização da Vítima em Meio à Indiferença
Os crimes passionais – atos de violência extrema frequentemente motivados por ciúmes, rejeição ou um doentio senso de posse – continuam a chocar, mas, paradoxalmente, expõem uma crescente falta de empatia no tecido social. Estes atos de fúria, que muitas vezes culminam em feminicídios, têm sua raiz em uma falha profunda na capacidade de ver o outro como um indivíduo autônomo. O agressor, ao não aceitar o fim de um relacionamento, destrói a vida da parceira como se ela fosse uma propriedade perdida. O problema central reside na banalização: a mídia e as redes sociais consomem e descartam a tragédia em poucas horas, transformando a dor em mero conteúdo espetacularizado.
Diante das atrocidades passionais, a frieza social se manifesta de maneira cruel. Em vez de luto e solidariedade, surge nos comentários públicos a culpabilização da vítima (“o que ela fez?”) ou a justificação velada do agressor (“ele estava apaixonado”). Essa reação cínica é parte da dessensibilização causada pela superexposição à violência (o chamado “efeito espectador”). A empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro e compartilhar seu sofrimento, é sufocada pelo individualismo extremo e pela necessidade de se proteger emocionalmente da dor alheia. Essa barreira impede a mobilização social eficaz contra a violência de gênero.
Essa falta de sensibilidade não apenas desonra a memória das vítimas, mas também perpetua um ciclo vicioso. Ao tratar a dor alheia como um problema individual e não como uma falha estrutural da sociedade, ignoramos a misoginia e a cultura da posse que alimenta esses crimes. O desafio contemporâneo é resgatar a sensibilidade perdida e transformar o choque das tragédias em ação real: exigindo leis mais rigorosas, investindo em educação emocional e, principalmente, rejeitando publicamente qualquer tentativa de vitimizar o agressor ou justificar a violência. É preciso que a sociedade se levante e declare que a vida e a autonomia das mulheres não são negociáveis.
Por: Paola Rossato





























