A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Jair Bolsonaro (PL) utiliza a
colaboração de Mauro Cid como peça-chave para sustentar a acusação de uma suposta tentativa
de golpe. No entanto, ao mesmo tempo em que ressalta trechos que comprometeriam o expresidente, deixa de fora declarações do ex-ajudante de ordens que contrastam a narrativa da
acusação.
A análise dos três últimos depoimentos de Cid — prestados entre novembro e dezembro de 2024
— revela diversas afirmações do tenente-coronel que não foram consideradas na peça assinada
pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, nem mesmo para estabelecer um
contraditório.
Em áudios vazados, Cid chegou a alegar que estava sendo pressionado a relatar fatos que não
ocorreram. Por outro lado, em novembro, alterou seu depoimento diante da possibilidade de
perder os benefícios da delação e voltar à prisão.
A denúncia foi estruturada com base nas investigações da Polícia Federal. Um dos principais
pontos levantados pelo documento seria a existência do plano “Punhal Verde Amarelo”, um
cronograma que incluía o assassinato do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
Alexandre de Moraes, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do vice-presidente, Geraldo
Alckmin (PSB).
Cid disse não saber se Bolsonaro tinha ciência de documentos
A PGR afirma que Bolsonaro tinha conhecimento do plano e o autorizou. A alegação se baseia
em uma troca de mensagens entre Cid e o general Mário Fernandes, apontado como o possível
autor do documento. No diálogo, o general menciona uma conversa com Bolsonaro, que teria
dito que “qualquer ação” poderia ser executada até 31 de dezembro.
Entretanto, a denúncia não menciona que, em seus depoimentos, Cid afirmou não saber se
Bolsonaro sequer tomou conhecimento do documento.
“Eu não tenho ciência se o presidente sabia ou não do plano que foi tratado, do Punhal Verde
Amarelo, e se o general Mário levou esse plano para ele ter ciência ou não”, disse Cid em
depoimento dado à PF em dezembro e ignorado na denúncia.
A PGR também destaca que Cid confirmou que Moraes foi monitorado duas vezes: uma a pedido
de militares supostamente envolvidos no plano e outra por solicitação do próprio ex-presidente.
“Mauro Cid confirmou, ainda”, escreveu Paulo Gonet, que “quem solicitou o monitoramento do
ministro Alexandre de Moraes ‘foi o ex-presidente Jair Bolsonaro’”.
No entanto, a denúncia omite a explicação de Cid de que Bolsonaro pediu o monitoramento não
como parte de uma operação de assassinato, mas porque estava irritado com rumores de que
Moraes estaria se encontrando com seu então vice, Hamilton Mourão.
Outro ponto em que a denúncia diverge dos depoimentos de Cid, sem mencionar essa
contradição, diz respeito ao dia 15 de dezembro de 2022, data em que a suposta operação de
assassinato de autoridades teria sido abortada.
A PGR menciona trocas de mensagens entre um dos militares e Cid, que estava fora de Brasília
naquele momento.
“Depois da operação ser abortada, Rafale Martins de Oliveira enviou mensagem, às 21h05, via
aplicativo WhatsApp, para Mauro César Barbosa Cid, afirmando ‘Opa’”.
“Cid respondeu, às 21h16, com ‘vou mudar de posição’.”
Segundo a denúncia, essa troca indicaria que Cid estava sendo informado em tempo real sobre
a operação. No entanto, em sua delação, o tenente-coronel alegou que estava em uma área com
sinal precário de celular e que não se comunicou com os militares naquele dia.
Outro aspecto da suposta tentativa de golpe seria uma reunião de militares em Brasília, em 28
de novembro de 2022, com o objetivo de elaborar um documento pressionando o então
comandante do Exército, Marco Antônio Freire Gomes, a aderir ao suposto plano.
A PGR não incluiu a versão de Cid de que, na reunião, não houve discussão sobre qualquer
plano específico de golpe, mas sim um “bate-papo de bar” entre militares inconformados com o
resultado das eleições.
“Naquele momento ninguém botou um plano de ação, é esse ponto que eu quero deixar claro,
ninguém chegou com um plano e botou um plano na mesa e falou assim, ‘não, nós vamos
prender o Lula, nós vamos matar, nós vamos espionar’”, disse Cid em depoimento à PF em 19 de
novembro.
Dois dias depois, ao depor novamente diante de Moraes e sob ameaça de perder seu acordo de
delação, Cid alterou sua versão sobre uma reunião anterior na casa do general Walter Braga
Netto, e afirmou que nela se discutiu a possibilidade de fomentar caos social para justificar uma
ruptura institucional.
Ele reforçou, no entanto, que não acompanhou toda a reunião e que não pode afirmar
exatamente o que foi planejado.
A denúncia contra o general Estevam Theófilo, chefe do Comando de Operações Terrestres do
Exército (Coter), também se baseia na delação de Cid.
Em mensagens, Cid teria sugerido que Theófilo estaria disposto a mobilizar tropas em favor de
Bolsonaro caso o então presidente assinasse um decreto de exceção.
No entanto, a denúncia desconsidera as declarações mais recentes de Cid. Nos últimos
depoimentos, o tenente-coronel afirmou acreditar que Theófilo obedeceria às ordens do Alto
Comando do Exército e não desrespeitaria a autoridade do comandante da Força.
“Se o presidente desse a ordem… Mas o problema é, eu não sei se ele passaria por cima do
general Freire Gomes”, disse Cid. “Isso não posso confirmar. As conversas que eu tive com ele,
até com o Cleverson, que era o assessor dele, era que ele não iria passar por cima do general
Freire Gomes.”
Por fim, a PGR incluiu mensagens de Cid que sugeriam que alguma ação ainda poderia ocorrer
depois da posse de Lula, mas ignorou as afirmações do tenente-coronel em sua delação. Ele
afirmou que as mensagens não tinham o sentido interpretado pela PF e que Bolsonaro não
planejou os atos do 8 de janeiro de 2023.
Fonte: Revista Oeste





























